(Continuação do Post Anterior)
Sequência radiográfica de um tratamento endodôntico:
Uma vez terminada a fase de limpeza do conteúdo pulpar, passamos à fase de preenchimento estanque desse espaço “vazio” que se criou dentro do dente. Esse preenchimento é efectuado com materiais biocompatíveis (não tóxicos para o organismo), que vão permitir a manutenção a longo prazo da estanquecidade do interior do dente.
Após finalização do tratamento endodôntico, resta reconstruir o dente, através da utilização de materiais de restauração como o amálgama dentário, a resina composta ou a cerâmica. É de realçar que um dente desvitalizado tem uma maior fragilidade do que um dente vivo, sobretudo devido ao facto de ter sido removida a polpa dentária, que ocupa uma parte importante da estrutura dentária, e de ter sido efectuada uma cavidade de acesso à polpa. É, igualmente, menos mineralizado do que um dente íntegro, devido à ausência da polpa, que permite uma remineralização constante do dente. Podemos dizer que um dente desvitalizado se assemelha a um ramo de árvore seco, mais “quebradiço” do que um ramo de árvore normal. Assim sendo, a reconstrução ideal é efectuada através da colocação de um espigão intraradicular em carbono e de uma coroa fixa cerâmica ou metalo-cerâmica, que não só protege o dente remanescente, como restabelece a estética e função do mesmo.
O prognóstico de um dente correctamente desvitalizado e reconstruído é extremamente favorável, e a sua manutenção é sempre preferível à extracção. Lembre-se: o que a Natureza cria, o Homem imita, mas nunca com a mesma perfeição. Assim, o seu próprio dente, desvitalizado ou não, é o melhor implante dentário que alguma vez poderá ter.
Abaixo observamos o resultado de um correcto tratamento endodôntico. Na primeira imagem observamos um dente com uma grande lesão periapical (a área escura à volta da raiz). Após o tratamento endodôntico, numa reavaliação após 6 meses, observa-se a completa regressão dessa mesma lesão (a área escura em torno da raiz desapareceu completamente).
Todos os dentes cariados ou destruídos podem ser desvitalizados?
Não. Existem critérios básicos que devem ser cumpridos para optar pela desvitalização ao invés da extracção de um dente. Em algumas situações mais extremas, como uma fractura vertical da raiz ou cáries radiculares muito profundas, poderá não ser viável realizar a desvitalização, e poderemos ter de optar pela extracção do dente. Só poderemos desvitalizar dentes que permitam uma posterior reconstrução, o que deverá ser avaliado previamente ao tratamento.
Radiografias de alguns dentes “irrecuperáveis” do ponto de vista endodôntico:
Todos os dentes cariados devem ser desvitalizados?
Não. Tudo depende do grau de agressão à polpa dentária que se verificar. Cáries pouco profundas, que ainda se localizam a vários milímetros da polpa dentária podem não causar uma agressão irreversível e não “obrigar” a tratamento endodontico. Nestes casos realizamos uma restauração simples do dente (o caso das radiografias abaixo reproduzidas).
A desvitalização de um dente é um processo doloroso?
Não. Se forem seguidas as regras básicas de anestesia local e de endodontia, não existe qualquer razão para sentir dor durante o tratamento.
Uma correcta desvitalização é fácil de executar?
Depende do dente a tratar, do operador que a executar e dos materiais e condições com que o fizermos. Uma vez que trabalhamos no interior da raiz do dente, a visibilidade por vezes será bastante difícil (obrigando, em certos casos, a recorrer ao uso de microscópio). O trajecto dos canais radiculares é, também, muitas vezes tortuoso, com curvas e contracurvas, sendo difícil limpar todo o seu conteúdo até à ponta da raiz. Uma desvitalização correcta deverá preencher completamente todo o comprimento dos canais radiculares (que poderão chegar a ser 7, dependendo do dente em questão).
Na imagem da esquerda observamos um tratamento endodôntico incompleto, sem o preenchimento de todo o comprimento dos canais. Na imagem da direita observamos o mesmo dente, após correcta desvitalização, com o completo preenchimento dos canais radiculares.
É a especialidade da Medicina Dentária que se dedica à prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças da polpa dentária (a parte “viva” do dente, que contém vasos e nervos), e das suas repercussões sobre os tecidos periodontais (tecidos que rodeiam o dente: osso alveolar, ligamento periodontal, cimento dentário e gengiva).
Compreende uma série de tratamentos que não se resumem somente à “desvitalização” convencional do dente, mas também a cirurgias endodônticas (nas quais se removem quistos e lesões que rodeiam a raiz do dente), pulpotomias e pulpectomias (executadas em dentes de leite), etc.
O tratamento endodôntico de um dente consiste na remoção e limpeza de todos os tecidos pulpares que existem dentro do dente, que compreendem vasos sanguíneos, fibras nervosas e, nalguns casos, linfáticos. Estes tecidos, que no fundo, dão a “vida” a um dente, têm diversas funções em saúde, como uma função de inervação, nutrição, protecção e secreção de diversas substâncias importantes para o dente, sendo constituídos por inúmeros tipos de células muito sensíveis a agressões físicas ou químicas.
O problema surge quando os tecidos pulpares são irreversivelmente afectados, geralmente devido à cárie dentária ou a traumatismos. Nesses casos, o tratamento endodôntico é uma solução e a única alternativa à extracção dentária.
Como é feito um tratamento endodôntico?
Após o diagnóstico (geralmente efectuado através de radiografias e de testes de sensibilidade, como o teste ao frio), e sob uma anestesia local adequada, realizamos uma pequena abertura na coroa do dente, que nos permite aceder aos tecidos pulpares, localizados no seu interior. Esta cavidade de acesso tem o nome de abertura coronária, e deverá ser suficientemente ampla para permitir o acesso à polpa com os instrumentos. Seguidamente, o dente a tratar deverá ser isolado do resto da cavidade oral, através da colocação de um dispositivo denominado dique de borracha. Este consiste numa pequena folha de látex, com um orifício onde ficará o dente a tratar, impedindo, por um lado, a entrada de saliva e de bactérias para o interior do dente que estamos a desinfectar, e, por outro, a passagem de líquidos de desinfecção ou de instrumentos para a cavidade oral do paciente. É um dispositivo essencial para se executar correctamente um tratamento endodôntico e cuja importância não deverá jamais ser menosprezada.
Com o dente isolado, e a cavidade de acesso aberta, poderemos então limpar todos os tecidos pulpares, utilizando para isso instrumentos endodônticos extremamente finos e maleáveis, denominados limas endodônticas. Estas limas permitem a remoção mecânica do conteúdo pulpar, e a remodelação e alargamento dos canais radiculares (canais muito finos existentes no interior das raízes dentárias, preenchidos pela polpa dentária). Juntamente com a acção mecânica das limas, o tratamento é complementado pela acção química de diversos líquidos desinfectantes bactericidas e fungicidas com os quais irrigamos os canais radiculares.
(Fim da parte 1)
(Parte 2 será publicada a 27/1/12)
Dr. Carlos Morais - departamento de Endodontia da clínica White
A Endodontia é a área da Medicina Dentária que se dedica à eliminação da totalidade do conteúdo pulpar do dente.
A polpa dentária é o tecido mais interno do dente, no qual estão inseridos o sistema nervoso e vascular que lhe conferem a sua vitalidade.
Em situações de cáries profundas ou traumatismos dentários, pode haver uma afectação da polpa. Como resposta a esta agressão a polpa defende-se criando uma inflamação (derivada do aumento do aporte sanguíneo para acção do sistema imunitário), que não tem por onde expandir, uma vez que, o dente é uma estrutura dura. Com isto cria-se a tão conhecida dor de dentes, que é uma dor muito forte, pulsátil e em que a única maneira de aliviar é procedendo com o tratamento endodôntico.
Com este tratamento conseguimos erradicar a dor pela diminuição da pressão e da inflamação, assim como, pela eliminação do agente infeccioso.
Para garantir o sucesso do tratamento temos que eliminar a totalidade da polpa existente tanto a nível da coroa do dente como também da(s) sua(s) raíz(es), ou seja, temos que promover a limpeza e conformação do sistema de canais radiculares que o constituem. Para este efeito temos que realizar primariamente um alargamento mecânico desses canais (com instrumentos próprios denominados por limas endodônticas para que seja possível utilizar de seguida irrigantes com poder desinfectante, conseguindo-se uma completa preparação. Depois de concluído este procedimento e sendo que, os dentes não podem ficar ocos, são preenchidos com uma borracha biocompatível (gutta-percha) que substitui a polpa e que previne futuras infecções.
Caso não se proceda com este tratamento, o dente apesar de deixar de doer, por falência (necrose) do complexo pulpar continua em situação de infecção, tornando-se num processo crónico com proliferação bacteriana que destruirá o osso subjacente até que no final se estabeleça um abcesso.
Dr. Carlos Morais
(Responsável pelo departamento de Endodontia da White)
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